campanha da fraternidade 2020

Na Campanha da Fraternidade (CF) 2020, somos convidados a olhar com mais atenção para a vida. Constata-se que a vida das pessoas chegou a um ponto que esbarra em uma série de angustiantes indagações.

  1. O que aconteceu conosco?
  2. Por que vemos crescer tantas formas de violência, agressividade e destruição?
  3. Perdemos, de fato, o valor da fraternidade?

Em meio a tantas questões, a CF 2020 convoca à reflexão sobre o significado mais profundo da vida e a encontrar caminhos para que esse sentido seja fortalecido ou reencontrado. É por isso que a CF 2020 proclama: a vida é Dom e Compromisso! Seu sentido consiste em ver, solidarizar-se e cuidar. Significa não passar cego às dores das pessoas.

Diante de tanta indiferença se torna urgente testemunhar e estimular a solidariedade (Mateus 25,45). Não temamos se nos sentirmos pequenos diante dos problemas. Lembremo-nos de Santa Dulce dos Pobres, mulher frágil no corpo, mas uma fortaleza peregrinante pelas terras de Salvador da Bahia de todos os Santos. Santa Dulce dos Pobres é testemunho irrefutável de que a vida é dom e compromisso. É Santa Dulce dos Pobres, que intercede por nós no céu.

BOM SAMARITANO: COMPAIXÃO E CUIDADO COM A VIDA

campanha da fraternidade 2020

A CF 2020 toma como referência a Parábola do Bom Samaritano (Lucas 10, 25-37). A Parábola do Bom Samaritano é composta por personagens anônimos. O Sacerdote e o Levita, desviam-se do homem ferido, pois não tinham tempo para ele. O Samaritano aproxima-se da vítima dos salteadores e, movido pela compaixão, gasta seu tempo, ficando com ele à noite na hospedaria. No dia seguinte paga as despesas da sua estadia e promete retribuir ao dono da hospedaria tudo o que porventura gastasse a mais para cuidar daquele que sofreu o assalto.

A postura inesperada do Samaritano contém o centro do ensinamento de Jesus: o próximo não é apenas alguém com quem possuímos vínculos, mas todo aquele de quem nos aproximamos. Não é a Lei, vínculo sanguíneo ou ligação afetiva que estabelecem as prioridades, mas a compaixão, que impulsiona a fazer pelo outro aquilo que nos é possível, rompendo com toda indiferença. A lei é esta: todos devem ser amados, sem distinção.

Ser capaz de sentir compaixão é a chave da obediência à vontade de Deus, que ama toda a criação: Ver! Sentir, ter compaixão e cuidar é o autêntico Programa Quaresmal.

1ª PARTE – “VIU”

campanha da fraternidade 2020

 

VIU, SENTIU COMPAIXÃO E CUIDOU DELE (LUCAS 10,33-34)

Na Parábola do Bom Samaritano, Jesus apresenta duas formas de olhar: uma que é indiferente: vê, mas passa adiante (sacerdote e levita); e outra que vê, permanece, envolve e se compromete (samaritano). Somente contemplando o mundo com os olhos de Deus (o olhar samaritano), é possível perceber e acolher o grito que emerge das várias faces da pobreza e da agonia da criação (DGAE 2019/2023 n. 102).

O olhar que vê e segue representa toda indiferença e desprezo pela vida do outro. Não se engane: mesmo os que estão próximos ou atuantes na Igreja, muitas vezes, podem ter o olhar maldoso, viciado e cansado. É preciso sempre exercitar a mesma perspectiva do olhar virtuoso que Cristo nos ensina. Muitos santos procuraram viver em suas vidas o olhar samaritano do nosso Salvador, que os levou a superar as dores, as injustiças e as violações de direitos, convencidos de que Deus criou o infinito para a vida ser sempre mais.

O OLHAR DA INDIFERENÇA GERA AMEAÇAS À VIDA

O aborto é realidade que ameaça a vida desde o ventre materno. Da mesma forma, o desprezo pela vida se manifesta por meio de projetos que querem regularizar a eutanásia e o suicídio assistido, garantindo o que chamam de direito de antecipação da morte. Também temos que citar a realidade de milhares de crianças órfãs que perderam suas famílias, sobretudo em tempos de violência e migração forçada.

Outros cenários que agridem a vida humana no Brasil são estes:

1- Desemprego: No 1º trimestre de 2019, a taxa de desemprego atingiu 12,7% da população.

2- Desolação: Cresce igualmente o número de pessoas desoladas, que desistiram de procurar emprego.

3- Miséria: O número de pessoas vivendo a miséria extrema já somam 13,5 milhões.

4- Ansiedade: Por todos estes problemas, o Brasil é considerado o país mais ansioso e estressado da América Latina.

5 – Suicídio: Em 2016, houve 11.433 mortes por suicídio, ou seja, 31 casos de suicídio por dia. Os jovens, entre 15 e 29 anos, estão entre as maiores vítimas do suicídio, a 4ª maior causa de morte nessa faixa etária.

6 – Violência no Trânsito: Nos primeiros seis meses de 2018, foram 19.398 mortes e 20 mil casos de invalidez permanente no país. 53,7% dos acidentes são causados pela negligência ou imprudência dos motoristas.

7 – Feminicídio: Em 2017, a cada dez feminicídios, registrados em 23 países, quatro ocorreram no Brasil. Naquele ano 2.795 mulheres foram assassinadas, das quais, 1.133 no Brasil.

8- Disputa pela água: Perto de um milhão de pessoas foram envolvidas nos conflitos pela água. Os ribeirinhos e pescadores foram vítimas preferenciais. As mineradoras são responsáveis por metade pelas disputas pela água. Em 2017, o conflito pela água provocou 71 assassinatos, sendo 31 em cinco massacres.

 

OUTRAS AMEAÇAS À VIDA

Uma série de ameaças à vida está batendo em nossas portas por intermédio dos meios de comunicação e das redes sociais, confundindo os cristãos, iludindo as famílias, atraindo jovens para uma mentalidade permissiva disfarçada de progresso científico. Na verdade, são propostas que excluem as pessoas e descartam vidas inocentes. Essas ameaças têm nome: aborto, eutanásia, suicídio assistido, eugenia (seleção de seres humanos pelas suas qualidades genéticas), tráfico de drogas, de pessoas e de órgãos, entre outros.

O individualismo marca de tal maneira as relações, que a vida corre o risco de ser vista não mais como Dom e Compromisso, mas como um peso ou como algo de que a pessoa possa dispor a seu bel prazer. O ser humano, e sua capacidade de ser “feliz” passam, nesta perspectiva, a ser avaliado pelo que produz e pelo que consome. Tudo isto indica a banalização da vida e a relativização da existência, o enfraquecimento do conceito de pessoa e até a justificativa legal de modalidades de homicídios e extermínios humanos, sob a alegação de conquistas de direitos.

AS OMISSÕES DO ESTADO

Em nossos dias, temos assistido uma transformação na concepção da ação Estatal, cujas preocupações parecem estar mais voltadas para o aspecto econômico do que para o cuidado das pessoas. A incapacidade do Estado de frear a violência (números caindo em 2019) contribui para a banalização do mal, na medida em que grupos de extermínio determinam os que devem viver e os que devem morrer, sempre tendo em vista o bem estar do mercado.

O OLHAR QUE DESTRÓI A NATUREZA

Nos últimos anos, vem crescendo a consciência de que, articulada com o desrespeito ao ser humano, encontra-se a agressão à natureza. Precisamos ter consciência de que nós, seres humanos, estamos incluídos na natureza e somos parte dela. O mal feito ao ser humano interfere negativamente no meio ambiente. O mal feito ao meio ambiente interfere afeta o ser humano. Portanto, não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise em dois lados de uma mesma moeda: sócio / ambiental.

O domínio da economia que não olha para as pessoas, mas para outros interesses, é o motor da desigualdade social que agride a vida, não só do ser humano, mas de todo o planeta. Um alerta: Olhando somente o lucro e não para a saúde das pessoas, a agricultura no Brasil é campeã mundial no uso de pesticidas, (ver dados oficiais no Ministério da Agricultura) alternando a posição, dependendo da ocasião, apenas com os Estados Unidos. Como exemplo, tomemos o feijão, presente nos pratos dos brasileiros, que tem um nível do inseticida – malationa – 400 vezes maior daquele permitido pela União Europeia.

O OLHAR DA INDIFERENÇA EXCLUI A VIDA

O mercado que seduz ao consumismo desenfreado atropela a vida dos mais pobres sem escrúpulo nem constrangimento algum. Com isso cresce a indiferença com a situação dos mais frágeis e se desenvolve a cultura da invisibilidade e do descartável, que é como podemos melhor descrever a indiferença.

Junto à indiferença, há outro inimigo que tem crescido em nossos dias: o ódio. A indiferença e o ódio, em todas as suas formas, paralisam e impedem que se faça o que é justo até mesmo quando se sabe o que é justo. A indiferença é um vírus que contagia perigosamente a nossa época, que cada vez mais aglomera pessoas em conjuntos habitacionais ou condomínios verticais e horizontais, porém sempre menos atentos e distantes afetivamente do próximo. Por essa razão, a CF 2020 deseja fomentar uma cultura do cuidado, da responsabilidade e da proximidade, estabelecendo uma aliança contra todo tipo de indiferença e ódio.

O OLHAR DA SOLIDARIEDADE SOCIAL

O olhar da fé, ao mesmo tempo em que identifica sombras, deve, indispensavelmente, identificar luzes. Com esperança vemos surgirem e se consolidarem serviços da escuta nas comunidades, de ajuda e vitória sobre as drogas. Também há a experiência de visitas missionárias às famílias em situação de risco. Isso tudo deve nos trazer alegria.

É incontável o número de pessoas que, pública ou anonimamente, dedicam sua existência a promover e defender a vida. Por exemplo, destacamos os 74 mil voluntários da Pastoral da Criança que, em todo o Brasil, atendem mais de 800 mil crianças. Na nossa Paróquia temos a Pastoral da Saúde, os Anjos da Paz, a parceria com o os “Irmãos de Rua, nossos Irmãos”, o Terço dos Homens que se colocam a serviço de mutirões para ajudar famílias pobres, a equipe da cesta básica que atende às lares feridos na segurança alimentar, e tantas outras atividades realizadas no silêncio do amor.

Assumir o olhar solidário e ser capaz de cuidar, como modo de ser no mundo, nos permite ir além do egoísmo e da indiferença. O cuidado de um pelo outro reinstaura o espaço da graça diante do mundo e de todas as formas de vida, gerando um novo laço de amor entre nós.

2ª PARTE  “SENTIU COMPAIXÃO”

campanha da fraternidade 2020

VIU, SENTIU COMPAIXÃO E CUIDOU DELE (LUCAS 10,33-34)

 

Compaixão de Jesus, romper com a indiferença:

Se, por um lado, o olhar da indiferença gera tanto mal, o olhar da compaixão pode fecundar o bem no coração humano e conferir verdadeiro sentido à vida. Não se trata apenas de um olhar de dó, mas de um olhar samaritano que reconhece a dignidade da pessoa e procura resgatar a imagem e semelhança no rosto de homens e mulheres desfigurados pelo pecado (Gênesis 1,26).É o olhar divino manifestado em Jesus.

Somos chamados a iluminar nosso olhar com o olhar do Cristo que, do alto do madeiro, viu e perdoou todos os pecados e nos salvou por sua misericórdia (Lucas 23,34). O Espírito Santo, Senhor que dá a vida, é o auxílio que garante a continuidade do olhar de Cristo no nosso olhar e nos impulsiona a ver a dignidade humana e de toda a obra da criação.

3ª PARTE “CUIDOU DELE”

CONVITE DA CF 2020

A CF 2020, ao tratar da vida como Dom e Compromisso, nos convida a uma conversão pessoal, comunitária, social e conceitual em relação à justiça que nutrimos. A missão do discípulo missionário de Jesus Cristo é revelar ao mundo o rosto da misericórdia. Valorizar a vida e promover a justiça misericordiosa é um ato de fé. Mas que também é um exercício que passa pela organização comunitária e social, que não pode ser confundido com o “deixar que se faça o que quiser com a certeza de que o perdão exista” como uma forma hipócrita da impunidade. Não é isso que se propõe ao falarmos da justiça com misericórdia. E nem que se cederá qualquer coisa que se pede, agindo na ingenuidade assistencialista. É preciso redescobrir o valor e a beleza do conteúdo cristão da justiça. Diante de várias formas da compreensão da justiça, lançamos um olhar sobre as concepções da justiça baseada na retribuição e da justiça baseada na restauração, formas diferentes de agir diante da dor.

A Justiça baseada na retribuição é vista como merecimento à altura do delito cometido ou da premiação ao bem praticado. Deve ser destacado que Jesus não se limitou a retribuir, pois, na verdade, nada havia a retribuir, pois, “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5,8).  Não houve retribuição – não a merecíamos. Houve, e isto sim, restauração. Por isso compreender a justiça no horizonte restaurativo é estabelecer uma nova compreensão sobre a pessoa que errou e sobre o conflito no qual ela se encontra envolvida.

Na parábola dos trabalhadores (Mateus 20,1-11) quando Jesus conta a história daqueles contratados na 1ª hora e outros, ao entardecer, temos a seguinte reação: aqueles que esperavam uma retribuição maior por terem trabalhado desde cedo, se revoltam quando sabem que os que chegaram por último receberam a mesma quantia. Os que reagem revoltosos são adeptos da justiça da retribuição. Aquele que contrata os operários olha o ser humano de forma integral, no desejo de contribuir para a restauração da dignidade corrompida pela falta de trabalho.

A CARIDADE: VERDADEIRO SENTIDO DA VIDA

É necessário redescobrir a caridade não só como inspiradora da ação individual, mas, também, como força capaz de suscitar novas vias de enfrentamento dos problemas do mundo de hoje, renovando as estruturas, organizações sociais e ordenamentos jurídicos. Nesta perspectiva, a caridade se torna social. A caridade social nos leva a amar o bem comum e a buscar efetivamente o bem das pessoas, consideradas não só individualmente, mas também na dimensão social que as une. Assim, na tradição cristã, a justiça jamais estará desvinculada da caridade.

A caridade deve animar a fé e a existência dos fiéis leigos e, consequentemente, também, a sua atividade política vivida com caridade social. A caridade, portanto, é o princípio não só das relações pessoais, mas também das relações sociais, econômicas e políticas. A verdadeira caridade é também ofertar um coração capaz de escutar o outro. A Igreja samaritana, sinal da caridade de Cristo vai além das aparências.

Fontes:
https://portalkairos.org/estudo-e-resumo-do-texto-base-da-cf-2020/
www.cnbb.org.br